sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Entre sono e sonhos


Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.


Fernando Pessoa

Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'neill,

Dias Difíceis


Quando abro os olhos,
Fico a pensar, se será nesse dia,
Que eu vou resolver tudo!
Fico sentado na beira da cama.
Durante alguns instantes,
Fico embrenhado em meus pensamentos!

Tudo vem à cabeça!
Desde os bons momentos,
Até aqueles que quero esquecer!
Mas daqueles que quero esquecer,
Posso tirar algo para repensar.
É difícil! Muito difícil tomar decisões!
Não é que tenha medo,
Ou que não consiga tomar uma decisão!
É muito difícil!
Mas há sempre um amigo,
Que nos oferece um ombro para chorar!
Felizmente tenho amigos.
Amigos que já me conhecem!
Basta uma palavra,
Ou simplesmente uma escrita!
Esse ombro fica logo disponível para mim!
Sou um felizardo!
Há muito boa gente que,
Não tem um ombro amigo como eu!
No meio desta angústia,
Sou feliz!!! Obrigado!!!



quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Emoção e poesia


Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem quão mais fácil é escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual está profundamente apaixonado. 

A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstracta. 
Uma grande emoção é por demais egoísta; absorve em si própria todo o sangue do espírito, e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever. 
Três espécies de emoções produzem grande poesia - emoções fortes, porém rápidas, captadas para a arte tão logo passaram; 
emoções fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; 
e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto. Não a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte.
O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império do seu país e para a história do seu povo não deseja - não pode desejar ter muitos dos seus soldados assassinados (mortos). 
Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação da sua estratégia, escolherá (sem um pensamento para os seus homens) o golpe melhor, embora o faça perder cem mil homens, em vez da estratégia pior, ou mesmo a mais lenta, que lhe pode deixar nove décimos daqueles homens com quem e por quem luta, e a quem, em geral, ama. 
Torna-se um artista por amor aos seus compatriotas, e expõe-nos à carnificina por causa da sua estratégia.

Fernando Pessoa, in 'Heróstrato'

Dispenso...


Dispenso uma vida rotulada,
humores instáveis,
amor de hora marcada.
Nego reviver o passado, 
ter maturidade quando quero colo.
Discordo viver sobre desculpas, 
amordaçar minha tolerância.
Não esfolo meu valor com o descaso.
Não podo minhas asas.
Não oscilo de opinião.
Adorno meus medos,
dores são segredos; 
prefiro expor o que tenho de bom.
Não sou de faces,
mas tenho fases. 
Não invento personalidade,
nem crio situações.
Que me achem fria...
que me julguem estranha.
Que se afastem os que confundirem... 
autenticidade com estupidez.
Sou o que quebra, 
não cola...
o que brota mas também desfolha.
A intensidade de uma ocasião.
Perfeita,ou não...

Patty Vicensotti

Talvez não saibas


Talvez não saibas mas dormes nos meus dedos
aonde fazem ninho... as andorinhas
e crescem frutos ruivos e há segredos
das mais pequenas coisas que são minhas.

Talvez tu não conheças mas existe
um bosque de folhagem permanente
aonde não te encontro e fico triste
mas só de te buscar fico contente.

Talvez não saibas mas digo que te amo
e construí no mar a nossa casa.
Que é por ti que pergunto é por ti que chamo
se a noite estende em mim a sua asa.

Talvez não compreendas mas o vento
anda a espalhar em ti os meus recados,
e que há um pôr-do-sol no pensamento
quando os dias são azuis e perfumados.

Oh meu amor, quem sabe se tu sabes
sequer se em ti existo ou sou demora,
ou sou como as palavras, essas aves
que cantam o teu nome a toda a hora.

Joaquim Pessoa

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O controle da alma


Lembra o retiro que te oferece esse pequeno domínio que és tu mesmo; acima de tudo, não te inquietes nem te oponhas, mas permanece livre e encara as coisas virilmente, como homem, como cidadão, como mortal. E, naquilo em que meditares mais frequentemente, estejam presentes estas duas verdades fundamentais: uma, que as coisas não afetam a alma, mas permanecem imóveis, fora dela, e as nossas perturbações resultam unicamente da opinião interior que a alma delas forma; outra, que tudo quanto contemplas mudará dentro de um instante e não mais existirá. Pensa em quantas mudanças já assististe. O cosmos é mutação; a vida, opinião.

Se suprimires a tua opinião sobre aquilo que te parece causar sofrimento, alcançarás perfeita segurança. Tu, quem? A razão. Mas eu não sou apenas razão. Seja. Então, que a razão não se perturbe a si mesma. Mas se outra parte de ti sofrer, que ela opine sobre si própria.

Marco Aurélio, in 'Pensamentos e Reflexões'