quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Apenas a quero


Quem sabe irei abraça-la,
como o mar abraça a areia.
Vê-la flutuar numa dança de liberdade.
Quem sabe serei o vento para acaricia-la,
sentindo o gosto de sal da sereia.
Tê-la nua, como inocente criança, sem maldade.
Mas apenas a quero!

Tornaria-se minha amante
e como o mar me inundaria.
Senti-la embriagada de prazer e de calor.
Sentiria-me um navegante
e nunca mais me perderia.
Seus mistérios conhecer com amor.
Ouvir, à noite, a canção
que sai de sua boca,
com a voz rouca e sombria.
Pairar sobre a tempestade de verão.
Pasmo, ao vê-la louca
e de desejo, fosca e arredia.
Mas apenas a quero!

Ao beija-la eu iria brilhar
e iluminaria as trevas.
As estrelas morreriam ao meu luzir.
Descobriria quão belo é te amar,
pois entre as devas,
outras nunca haveriam de me seguir.
Por isso a quero!

Que embriagante amor eu tenho
em meu coração humano,
que hoje a tenho e ainda a quero?
Talvez seja de onde venho,
onde o céu toca o oceano,
o infinito que mantenho
com meu amor sincero.
Mesmo assim, apenas a quero!

E de tudo que conquistei,
ao tê-la em meus braços
e querer-te ainda mais, é amor.
Porém, nunca me esquecerei,
que toda vez que te abraço
Sinto-me cheio de paz, o vencedor.
E cada vez mais, a quero!

Mario Pavani

Por decoro


Quando me esperas, palpitando amores,
e os lábios grossos e úmidos me estendes,
e do teu corpo cálido desprendesdesconhecido olor de estranhas flores;

quando, toda suspiros e fervores,
nesta prisão de músculos te prendes,
e aos meus beijos de sátiro te rendes,
furtando às rosas as purpúreas cores;

os olhos teus, inexpressivamente,
entrefechados, lânguidos, tranquilos,
olham, meu doce amor, de tal maneira,

que, se olhassem assim, publicamente,
deveria, perdoa-me, cobri-los
uma discreta folha de parreira.

Artur Azevedo

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Fizeram a gente acreditar


"Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer,só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos. Não contaram pra nós que amor não é acionado, nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade. 

Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo. 
Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável. Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um": duas pessoas pensando igual, agindo igual, que era isso que funcionava. 
Não nos contaram que isso tem nome: anulação.
Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. 
Só não disseram que existe muito mais cabeça torta do que pé torto. 
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade. 
Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que podemos tentar outras alternativas.
Ah, também não contaram que ninguém vai contar isso tudo pra gente. 
Cada um vai ter que descobrir sozinho. 
E aí, quando você estiver muito apaixonado por você mesmo, vai poder ser muito feliz e se apaixonar por alguém"John Lennon

Gosto do teu jeito


Gosto desse teu jeito calmo, sossegado,
com que te encostas em meu peito
e te deixas ficar
entre ternuras e embaraços,
como se tudo ficasse, de repente, parado,
e teu mundo pudesse ser delimitado
pelos meus braços...
Gosto de ti assim, pequenina, macia,
quando te aperto contra mim e te sinto
minha...
e tens um ar abandonado, como quem caminha
sonâmbula, por um estranho caminho
feito de céu e de lua...


J.G. de Araujo Jorge

O amor não existe sem ciúme


Se o ciúme nasce do intenso amor, quem não sente ciúmes pela amada não é amante, ou ama de coração ligeiro, de modo que se sabe de amantes os quais, temendo que o seu amor se atenue, o alimentam procurando a todo o custo razões de ciúme.
Portanto o ciumento (que porém quer ou queria a amada casta e fiel) não quer nem pode pensá-la senão como digna de ciúme, e portanto culpada de traição, atiçando assim no sofrimento presente o prazer do amor ausente. 

Até porque pensar em nós que possuímos a amada longe - bem sabendo que não é verdade - não nos pode tornar tão vico o pensamento dela, do seu calor, dos seus rubores, do seu perfume, como o pensar que desses mesmos dons esteja afinal a gozar um Outro: enquanto da nossa ausência estamos seguros, da presença daquele inimigo estamos, se não certos, pelo menos não necessariamente inseguros. 
O contacto amoroso, que o ciumento imagina, é o único modo em que pode representar-se com verosimilhança um conúbio de outrem que, se não indubitável, é pelo menos possível, enquanto o seu próprio é impossível.
Assim o ciumento não é capaz, nem tem vontade, de imaginar o oposto do que teme, aliás só pode obter o prazer ampliando a sua própria dor, e sofrer pelo ampliado prazer de que se sabe excluído. 
Os prazeres do amor são males que se fazem desejar, onde coincidem a doçura e o martírio, e o amor é involuntária insânia, paraíso infernal e inferno celeste - em resumo, concórdia de ambicionados contrários, riso doloroso e friável diamante.

Umberto Eco, in 'A Ilha do Dia Antes'

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O barco


Nos ensinam tantas coisas

Navegar em águas conhecidas

Seguir a orientação do tempo

Parar em alguns momentos

Não teimar com os fatos

Evitar os portos inseguros

Soltando nossas amarras

Libertar os pensamentos

Aprender com os desapontamentos

E viver com sentimento.


Anilice Schwarzer

Te buscando nas lembranças


A solidão da noite me toma
Uma lagrima resvala em meu rosto
Triste ela professa e falece em minha boca
E após ela, segue outra... e outra...

A saudade me sufoca o peito
Uma inquietação se torna constante
Sinto carência de teus beijos
Sozinha... Sem você...
Nada faz sentido...
...Nada dá prazer...

Tenho saudade de teu sorriso
Admirável e cheio de fascínio.
Recordo tuas palavras de amor
Declarações antes por mim tão sonhadas
Agora em meu coração arquivadas
P’ra na saudade conter um pouco essa dor

Amo-te tanto... De tal maneira
Que a saudade dói e machuca
Me transforma em tristeza a alegria
Deixando sem cor os meus dias.

Saudade me recorda teus abraços
Envolvendo-me em ti como laços
Fazendo-me delirar de amor.
Te quero pra sempre em minha vida
Ser a teu lado eterna menina...
... no ato ...ser fera indomada
Deixar tua pele marcada...
Ser hoje e sempre... Teu amor...

Ah, saudade malvada!
Que chega de jeito e maltrata,
Que dói e corrói a alma
De uma mulher que te ama intensamente.

Ah, meu menino, meu anjo faceiro,
Meu amado, amante, companheiro,
Meu amigo, meu sonho, meu amor...
Amar-te foi o que de bom me aconteceu.
...Amar-te como a vida concedeu...

Saudades é coisa ruim...
É saber que você não está a meu lado,
É recordar teus beijos, teus enlaço...
Teus carinhos tão intensos pra mim.

É nessa saudade sem tamanho
Que sinto o quanto te amo
E não tem mais como viver sem ti...

 Sandra Paula