domingo, 3 de março de 2013

Cartografia


Deixe que meus versos
Acariciem teu ouvido
Para que cada palavra de minha boca
Busque os segredos profundos da tua pele.

Em verbos e adjetivos
Mapearei a geometria de tuas formas
Delirando entre sonhos e verdades
E vivências, desejos e loucuras.

Entre o toque da caneta no papel
E o de nossas línguas num beijo
Vai uma distância tão curta
Que escala alguma representará.

Derrubando fronteiras
Com rios de prosa a versejar
Traçarei meandros de corpos em corpos
Estremecendo as atmosferas desses encontros.

E quando o último verso meu
Escorrer por entre tuas pernas
Eu me afastarei
E contemplarei.

Cada linha eterna de tua beleza,
Eternamente gravadas em mim.
E saberei não haver distância
Entre minhas palavras e a tua boca.

Paulo Mont´Alverne

sábado, 2 de março de 2013

Isto


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

Amor e seu tempo


Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. 

Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

Floresce e desfolha


Cada um ao nascer
traz sua dose de amor,
mas os empregos,
o dinheiro,
tudo isso,
nos resseca o solo do coração.
Sobre o coração levamos o corpo,
sobre o corpo a camisa,
mas isto é pouco.
Alguém
imbecilmente
inventou os punhos
e sobre os peitos
fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem.
A mulher se pinta.
O homem faz ginástica
pelo sistema Muller.
Mas é tarde.
A pele enche-se de rugas.
O amor floresce,
floresce,
e depois desfolha.

Vladimir Maiakóvski

sexta-feira, 1 de março de 2013

Quem me dera



Quem me dera... 
pudesse ainda,
ver o brilho intenso do teu olhar...
o desejo que fluía neles,
quando estavas a me olhar.

Quem me dera... 
ao anoitecer ,
olhar o céu e vê as estrelas cintilarem ...
identificar em uma delas... linda,
o brilho constante do teu olhar .

Quem me dera... 
ver na lua o teu sorriso...
malicioso a me fitar,
com o desejo presente de me beijar.

Que me dera... 
acreditar ,
um dia hei de te encontrar ...
e num mundo novo, 
irei te amar.

Rita Maria Medeiros de Almeida

Esperança


Não! A gente não morre quando quer,
Inda quando as tristezas nos consomem.
Há sempre luz no olhar de uma mulher
E sangue oculto na intenção de um homem.
Mesmo que o tempo seja apenas dor
E da desilusão se fique prisioneiro.
Vai-se um amor? Depois vem outro amor
Talvez maior do que o primeiro.
Sonho que se afogou na baixa-mar,
De novo há de erguer, cheio de fé,
Que mesmo sem ninguém o suspeitar,
Volta a encher a maré.
Não penses que jamais hás de achar fundo
Nem que entre as tuas mãos não terás outra mão.
Pode a vida matar o sonho e o sol e o mundo,
Mas não nos mata o coração.

JG de Araujo Jorge

Canção para uma Valsa Lenta





Minha vida não foi um romance
Nunca tive até hoje um segredo.
Se me amas, não digas, que morro
De surpresa, de encanto. de medo...

Minha vida não foi um romance...
Minha vida passou por passar.
Se não amas, não finjas, que vivo
Esperando um amor para amar.

Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
Glória a ti que me enches a vida
De surpresa, de encanto, de medo!

Minha vida não foi um romance...
Ai de mim... Já se ia acabar!
Pobre vida que toda depende
De um sorriso, de um gesto, um olhar...


Mario Quintana