terça-feira, 17 de junho de 2014

Loucos e santos



Escolho meus amigos não pela pele
ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador
e tonalidade inquietante.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Escolho meus amigos pela alma
lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo,
quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim:
metade bobeira, metade seriedade.
Quero amigos sérios, que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem, mas lutam
para que a fantasia não desapareça.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam
o valor do vento no rosto;
e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos,
bobos e sérios, crianças e velhos,
nunca me esquecerei de que “normalidade”
é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Fernando Pessoa


Quando a dor me amargurar,
Quando sentir penas duras,
Só me podem consolar
Teus olhos, contas escuras.
Deles só brotam amores
Não há sombras de ironias:
Esses olhos sedutores
São duas Ave-Marias.
Mas se a ira os vem turvar
Fazem-me sofrer torturas
E as contas todas rezar
Dum rosário d'amarguras.
Ou se os alaga a aflição
Peço pra ti alegrias
Numa fervente oração
Que eu rezo todos os dias!

domingo, 15 de junho de 2014

Eu


Eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora.

Quem está por fora
não segura
um olhar que demora.

De dentro do meu centro
este poema me olha...


Paulo Leminski

Green God


Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era um corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.

Eugénio de Andrade

sábado, 14 de junho de 2014

Com um punhado de palavras


Façamos trato.
Você cuida de mim
e eu das tuas asas.
Garanto-lhe o voar.
Altos, baixos, por vales e rios.
Descobrir lugares.
Oceanos e mares.
À luz do sol e da lua.
Viver emoções, razões, corações.
Rasgar o céu, apertar nuvem.
Entrelaçar vento, driblar tormento.
E a ti peço apenas sopro.
Assovio e pouco de luz.
Para iluminar meu caminhar, meu tanto pensar.
Assim as pedras verei.
E com elas, hei de conversar, negociar.
Para continuar, sonhar, amar e realizar.
Eu na terra, você no ar.
Juntos enfim.
Anjo da guarda me proteja.
Prometo-te fazer o mesmo.
Hoje e SEMPRE.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Amando...


Não sou mais o Ontem insano,
Sou o Hoje muito bem ‘vivendo’!
No Ontem chorei, sofri, adoeci,
Abandonei a mim mesmo...
Mas, Hoje? Ah... Não mais!
Do Ontem muito aprendi...
E Hoje já me curei de ser triste,
Agora só morro de tanto rir!
... Sempre pulando, brincando,
No meio de todos que amo!
Vou andando por aí...
Pois, Hoje, minha gente,
Já me achei em mim mesmo!
E sou lou-ca-men-te... Feliz!

Se correr, não dirija !


... Um minuto só basta,
Num átimo,
Na curva do caminho,
Ele se perdeu...
Triste ironia,
Não foi bebida!
Falha mecânica?
Humana?
Ou, apenas sua hora
Que chegou?
Imagino a cena:
‘Freios que berram,
O carro desliza...
Num só minuto,
Tudo é tão rápido!
E tão lento,
Ao mesmo tempo...
Árvore que se aproxima,
Seu grito engolido,
Sem tempo
Para despedida...’
Uma vida a mais,
Na curva do caminho
Que se vai,
(Em plena luz do dia!)
E que se foi...
Tão injusto, meu Deus!
Só 22 anos ele tinha...

P.Z.