segunda-feira, 30 de junho de 2014

De onde me chegam estas palavras?


De onde me chegam estas palavras?
Nunca houve palavras para gritar a tua ausência.
Apenas o coração pulsando a solidão antes de ti quando o teu rosto doía no meu rosto e eu descobri as minhas mãos sem as tuas
e os teus olhos não eram mais que o lugar escondido 
onde a primavera refaz o seu vestido de corolas.


E não havia um nome para a tua ausência.
Mas tu vieste.
De coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do outono?
Tu vieste.

E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
Acendes todas as fogueiras.
Escreves todas as palavras.
Em canto de alegria desprende-se dos meus dedos
Quando toco o teu corpo e habito em ti
E a noite não existe
Porque as nossas bocas acendem na madrugada
Uma aurora de beijos.

Oh, meu amor,
Doem-se os braços de te abraçar,
Trago as mãos acesas,
A boca desfeita
E a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
O medo de perder-te é um cordel que pisa os meus cabelos
E se perde depois numa estrada deserta por onde
Caminhas nua
Como se estivesses triste.

Antóneo Gedeão

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A escolha é sua...


A certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por Woody Allen diz: "Nós somos a soma das nossas decisões".
Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu. Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso.
Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção,estamos descartando outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou chamar "minha vida".
Não é tarefa fácil. No momento em que se escolhe ser médico, se está abrindo mão de ser piloto de avião. Ao optar pela vida de atriz, será quase impossível conciliar com a arquitetura. No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro, num excitante vaivém de romances. Até que chega um momento em que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar uma microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e responsabilidades.
As duas opções têm seus prós e contras: viver sem laços e viver com laços...
Escolha: beber até cair ou virar vegetariano e budista? Todas as alternativas são válidas, mas há um preço a pagar por elas.
Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se está bem-disposto e não tê-los quando se está cansado. Por isso é tão importante o auto conhecimento. Por isso é necessário ler muito, ouvir os outros, estagiar em várias tribos, prestar atenção ao que acontece em volta e não cultivar preconceitos. Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas, elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar de caminho: Ninguém é o mesmo para sempre.Mas que essas mudanças de rota venham para acrescentar, e não para anular a vivência do caminho anteriormente percorrido. A estrada é longa e o tempo é curto.Não deixe de fazer nada que queira, mas tenha responsabilidade e maturidade para arcar com as conseqüências destas ações.Lembrem-se: suas escolhas têm 50% de chance de darem certo, mas também 50% de chance de darem errado. A escolha é sua...!


Pedro Bial

terça-feira, 24 de junho de 2014

Ideal


Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vênus de cintura estreita…

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortas entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita…

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que se dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino…

E como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo…

Antero de Quental

domingo, 22 de junho de 2014

Guardava alguns silêncios e também as coisas


Guardava alguns silêncios e também as coisas que não dissera por acaso. Guardava agora também esses acasos, brancos recados entre as palavras que lhe sobravam nas gavetas. E ainda assim guardaria
para sempre essas palavras, ou a imagem de lábios a dizê-las ― um rosto ainda sem ser triste lembrando o verão.

Teria aguardado esse verão, o cheiro quente dos morangos à beira os dedos. E tê-lo-ia sobretudo guardado, como guardava agora, sem nunca o ter ouvido, o som das espigas, na planície, à passagem do vento.

Mas agora só podia aguardar a passagem do tempo sem palavras; ou um vento de feição, um acaso que tudo justificasse. E no silêncio em que se ia guardando 
buscava apenas um lugar mais sereno para as memórias.


Maria do Rosário Pedreira

sábado, 21 de junho de 2014

Amor


Crises de abstinência
Da substância inadequada
Que intoxica seu peito
Denominada AMOR

A absorção do sagrado licor
Que esbanja e rola em seu rosto
Embalando lindas canções
E palavras sentidas no gosto

Do beijo amargo
Ao doce amasso
Do triste desejo
De querer
Um simples abraço

Da mão
Que pede
Ao olhar
Que cede
Sua triste aversão

Do peito
Que implora
O amor
Que há lá fora
E volta a bater
Um coração....


Jê Lawrenz

Fundamental



É fundamental que tenhamos humildade
para reconhecermos que precisamos
dividir com alguém nossas particularidades
e confessarmos que não somos auto-suficientes, que precisamos de um toque,
de ouvir, de sentir, de descobrir um ao outro
e explorar cada instante, e em cada crise
ou dificuldade confirmarmos nossa essência.
Muitos de nós erroneamente,
na busca incessante de nos realizarmos
como pessoas muitas vezes depositamos
no outro a responsabilidade de fazer-nos
felizes ou de desenvolver o sentido de nossas vidas.
Cabe apenas a nós mesmos essa incumbência
e também a de permitirmos o privilégio
a esse alguém especial de fazer
parte da magnitude que é a vida
particular e intima de cada um de nós.

Thomas Ruth

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O vôo


Goza a euforia do vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo.

Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.

Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão,
se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota, como um pássaro, as canções que tens na garganta.

Canta!
Canta para conservar uma ilusão de festa e de vitória.

Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro.

Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo do céu?

Que importa a rota.
Voa e canta, enquanto resistirem as asas.

Menotti Del Picchia