Não me conheço ainda completamente...
Sou um mistério totalmente previsível...
Sou desvendada...
Pelo o que de mim...ainda não foi revelado...
Um emaranhado de contradições...Hormonais...
Femininas...
Alucinadas...e criativas realidades virtuais...
Me observo por horas...
E ainda não me compreendo...
Meu ciúme é impulsivo...
Grito...
Desafio...
Provoco...
Desejo...
E gosto de confundir...
Mas sei que ainda sou criança
E me entedio com o que ainda não sei de mim...
Preciso me surpreender...
Tenho certeza...
Que vou dar gargalhadas
Quando me encontrar...
Brincando de pic...
Onde quer que eu tenha me escondido.
Marisa Fernandes
Muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos
abscessos tumores nódulos pedras são palavras
calcificadas
poemas sem vazão
mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado
prisão de ventre poderia um dia ter sido poema
pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa
palavra boa é palavra líquida
escorrendo em estado de lágrima
lágrima é dor derretida
dor endurecida é tumor
lágrima é alegria derretida
alegria endurecida é tumor
lágrima é raiva derretida
raiva endurecida é tumor
lágrima é pessoa derretida
pessoa endurecida é tumor
tempo endurecido é tumor
tempo derretido é poema
palavra suor é melhor do que palavra cravo
que é melhor do que palavra catarro
que é melhor do que palavra bílis
que é melhor do que palavra ferida
que é melhor do que palavra nódulo
que nem chega perto da palavra tumores internos
palavra lágrima é melhor
palavra é melhor
é melhor poema
Viviane Mosé
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
David Mourão-Ferreira,
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega -
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.
Alberto Caeiro

Está na moda - muitas mulheres ficam em acrobáticas posições ginecológicas para raspar os pêlos pubianos nos salões de beleza. Ficam penduradas em paus-de-arara e, depois, saem felizes com apenas um canteirinho de cabelos, como um jardinzinho estreito, a vereda indicativa de um desejo inofensivo e não mais as agressivas florestas que podem nos assustar. Parecem uns bigodinhos verticais que (oh, céus!...) me fazem pensar em... Hitler. Silicone, pêlos dourados, bumbuns malhados, tudo para agradar aos consumidores do mercado sexual. Olho as revistas povoadas de mulheres lindas... e sinto uma leve depressão, me sinto mais só, diante de tanta oferta impossível. Vejo que no Brasil o feminismo se vulgarizou numa liberdade de "objetos", produziu mulheres livres como coisas, livres como produtos perfeitos para o prazer. A concorrência é grande para um mercado com poucos consumidores, pois há muito mais mulher que homens na praça (e-mails indignados virão...) Talvez este artigo seja moralista, talvez as uvas da inveja estejam verdes, mas eu olho as revistas de mulher nua e só vejo paisagens; não vejo pessoas com defeitos, medos. Só vejo meninas oferecendo a doçura total, todas competindo no mercado, em contorções eróticas desesperadas porque não têm mais o que mostrar. Nunca as mulheres foram tão nuas no Brasil; já expuseram o corpo todo, mucosas, vagina, ânus. O que falta? Órgãos internos? Que querem essas mulheres? Querem acabar com nossos lares? Querem nos humilhar com sua beleza inconquistável? Muitas têm boquinhas tímidas, algumas sugerem um susto de virgens, outras fazem cara de zangadas, ferozes gatas, mas todas nos olham dentro dos olhos como se dissessem: "Venham... eu estou sempre pronta, sempre alegre, sempre excitada, eu independo de carícias, de romance!..." Sugerem uma mistura de menina com vampira, de doçura com loucura e todas ostentam uma falsa tesão devoradora. Elas querem dinheiro, claro, marido, lugar social, respeito, mas posam como imaginam que os homens as querem. Ostentam um desejo que não têm e posam como se fossem apenas corpos sem vida interior, de modo a não incomodar com chateações os homens que as consomem. A pessoa delas não tem mais um corpo; o corpo é que tem uma pessoa, frágil, tênue, morando dentro dele. Mas, que nos prometem essas mulheres virtuais? Um orgasmo infinito? Elas figuram ser odaliscas de um paraíso de mercado, último andar de uma torre que os homens atingiriam depois de suas Ferraris, seus Armanis, ouros e sucesso; elas são o coroamento de um narcisismo yuppie, são as 11 mil virgens de um paraíso para executivos. E o problema continua: como abordar mulheres que parecem paisagens? Outro dia vi a modelo Daniela Cicarelli na TV. Vocês já viram essa moça? É a coisa mais linda do mundo, tem uma esfuziante simpatia, risonha, democrática, perfeita, a imensa boca rósea, os "olhos de esmeralda nadando em leite" (quem escreveu isso?), cabelos de ouro seco, seios bíblicos, como uma imensa flor de prazeres. Olho-a de minha solidão e me pergunto: "Onde está a Daniela no meio desses tesouros perfeitos? Onde está ela?" Ela deve ficar perplexa diante da própria beleza, aprisionada em seu destino de sedutora, talvez até com um vago ciúme de seu próprio corpo. Daniela é tão linda que tenho vontade de dizer: "Seja feia..." Queremos percorrer as mulheres virtuais, visitá-las, mas, como conversar com elas? Com quem? Onde estão elas? Tanta oferta sexual me angustia, me dá a certeza de que nosso sexo é programado por outros, por indústrias masturbatórias, nos provocando desejo para me vender satisfação. É pela dificuldade de realizar esse sonho masculino que essas moças existem, realmente. Elas existem, para além do limbo gráfico das revistas. O contato com elas revela meninas inseguras, ou doces, espertas ou bobas mas, se elas pudessem expressar seus reais desejos, não estariam nas revistas sexy, pois não há mercado para mulheres amando maridos, cozinhando felizes, aspirando por namoros ternos. Nas revistas, são tão perfeitas que parecem dispensar parceiros, estão tão nuas que parecem namoradas de si mesmas. Mas, na verdade, elas querem amar e ser amadas, embora tenham de ralar nos haréns virtuais inventados pelos machos. Elas têm de fingir que não são reais, pois ninguém quer ser real hoje em dia - foi uma decepção quando a Tiazinha se revelou ótima dona de casa na Casa dos Artistas, limpando tudo numa faxina compulsiva. Infelizmente, é impossível tê-las, porque, na tecnologia da gostosura, elas se artificializam cada vez mais, como carros de luxo se aperfeiçoando a cada ano. A cada mutação erótica, elas ficam mais inatingíveis no mundo real. Por isso, com a crise econômica, o grande sucesso são as meninas belas e saradas, enchendo os sites eróticos da internet ou nas saunas relax for men, essa réplica moderna dos haréns árabes. Essas lindas mulheres são pagas para não existir, pagas para serem um sonho impalpável, pagas para serem uma ilusão. Vi um anúncio de boneca inflável que sintetizava o desejo impossível do homem de mercado: ter mulheres que não existam... O anúncio tinha o slogan em baixo: "She needs no food nor stupid conversation." Essa é a utopia masculina: satisfação plena sem sofrimento ou realidade. A democracia de massas, mesclada ao subdesenvolvimento cultural, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade ignorante como a nossa deu nisso: superobjetos se pensando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor e dinheiro. A liberdade de mercado produziu um estranho e falso "mercado da liberdade". É isso aí. E ao fechar este texto, me assalta a dúvida: estou sendo hipócrita e com inveja do erotismo do século 21? Será que fui apenas barrado do baile?
Arnaldo Jabor

Juro ter ouvido, entre suspiros fundos e lágrimas fundas, sons de castanholas envolvidos em brumas de sangue. Impressão ou sentimento engolido por aquelas fotografias sépias de lembranças guardadas nos primeiros anos de vida.
O que havia em seu pequeno quarto de mundo, avesso às tristezas de final de vida? Ninguém descobrira, talvez, porque tão trancado, se, agora há pouco, plantara seu mundo tão distante do chão empedrado onde brotara, para dançar, sobre uma mesa, um bailado espanhol ensopado de alegria. Nem descobririam filhos, netos, sobrinhos, parentes, amigos, desconhecidos, os porquês das tramelas no coração perto do fim.
Nesses dias de antes, lembravam, ninguém tinha sua destreza ao descarnar um animal, açougueiro de alma. Ninguém!, espalhavam a todos os ventos com a força do exagero. Ou sua extrema sutileza, quase um bisturi, ao manipular um canivete amolado em direção aos bagos de um cavalo ou outro que estivesse a ser capado. Esporas tingidas, limpava o suor no próprio sangue e invocava deuses. Parecia imolar com pena, parecia sentir a dor, mas sem dó.
Nesses dias de antes, lembravam ainda mais, ninguém desafiava o trabalho como um mouro, descendente de mouro, vindo de onde vieram os mouros, mouro enfim, raízes fincadas em um chão arenoso.
Além das orações do trabalho, cultivava a religião dos céus, longe dos templos e dos seus administradores. Rezava como crente, para dentro, cultivando o terreno do peito, os músculos e as carnes. E o silêncio. Também comemorava os resultados do trabalho, taças borradas de vinho e de paixão, os olhos atiçados na fogueira do futuro.
Por que, então, o lento fechar de janelas ao mundo, sentimentos recolhidos, ouvidos moucos ao vento que sopra manhoso na areia fina de uma terra quente, onde, agora há pouco, ele estourara balas de revólver, cacos de garrafas, estilhaços de silêncios, pedaços do céu?
Poucos tentaram e ninguém soube me explicar porque de embaixador da alegria, carteiro de felicidade, ele mudou, assumindo fantasmas a mim nunca apresentados, distribuindo a poucos, quase nenhuns, segredos, mistérios, pequenos acordos ou fuxicos de vida.
De festivo passou a ser motivo da festa. Alvo da sanha. Inclusive de pequenos infames, que nada ou quase nada sabiam de sua vida, algozes que vieram depois cobrar a felicidade que ele havia proporcionado a seus avós, pais ou a ele mesmo, aos seus, a desconhecidos. Berravam apelidos, as maritacas pintadas de anuns. E ele arrastava o resto de vida pelas ruas, fechado em seu quarto de mundo, à espera da volta, quem sabe, aos braços da mulher, com cheiro das videiras e das oliveiras em seu colo, camomilas esparramadas em algodão das batas.
Enchia os bolsos de bitucas, cigarros murchos, para, talvez, tragar o resto da brisa que soprava no mar que o trouxe de outras costas, bruto sonhador de aventuras. Se ainda pudesse, além de queimar os lábios com as brasas, queimá-los com o vinho da amada, casa de saciar a fome de outras labaredas, expurgar as dores e benzer a vida de esperanças...
Seus cabelos renascentistas, impróprios para um analfabeto de letras enterradas em sua origem no século XV, cresceram em tufos, espalhados pelas sobrancelhas, ouvidos, cabeça, braços, colhidos pelo tempo como animal no matadouro.
Nada de terno. Animal, esfaqueavam em desprezo as maritacas. O viver, espalhado em dezenas, como os fios de seu cabelo, virava cinzas nesses dias de antes, nos muros, nos bares, nas calçadas, no abandono, no cheiro acre de urina no quarto apertado de solidão, sem explicações.
Juro ter ouvido sons roucos de tourada, bois chifrando o toureiro e ele se esquivando, olé, um bailado no tablado de uma mesa ou na sujeira de um chão nu, copos partidos ao meio, cheiro de pólvora, olé, saliva pastosa no canto da boca, um poema despetalado, flores amarelas e vermelhas e janelas se fechando, para sempre, no pedaço rubro da tarde.
Nilson Monteiro
Tudo renegarei menos o afeto,
e trago um ceptro e uma coroa,
o primeiro de ferro, a segunda de urze,
para ser o rei efémero
desse amor único e breve
que se dilui em partidas
e se fragmenta em perguntas
iguais às das amantes
que a claridade atordoa e converte.
Deixa-me reinar em ti
o tempo apenas de um relâmpago
a incendiar a erva seca dos cumes.
E se tiver que montar guarda,
que seja em redor do teu sono,
num êxtase de lábios sobre a relva,
num delírio de beijos sobre o ventre,
num assombro de dedos sob a roupa.
Eu estava morto e não sabia, sabes,
que há um tempo dentro deste tempo
para renascermos com os corais
e sermos eternos na sofreguidão de um instante.
José Jorge Letria,